

HOMILIA DE D. JOSÉ SANCHES
ALVES NA MISSA
EXEQUIAL
DE AMÁLIA RODRIGUES
Emudeceu a voz que levou
o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo. A Nação está de luto. Todos
nos curvamos respeitosamente perante os restos mortais de Amália, a artista
singular que cantou, como ninguém, a saudade da alma portuguesa e fez vibrar
as cordas da tristeza em acordes de alegria.
Artista verdadeira e
construtora genial da beleza musical ficará para sempre associada ao mistério
da criação. Nela brilhou com fulgor o poder criador de Deus. Pela música,
abriu, a seu modo, «um caminho de acesso à realidade mais profunda do homem
e do mundo», afastou para longe o desespero que invade os espíritos
embotados e fez nascer a alegria no coração dos homens.
Através da música,
cultivou a beleza que, no dizer do papa João Paulo 11, «é chave do mistério
e apelo ao transcendente. Convida a saborear a vida e a sonhar o futuro».
Suscita nos homens a misteriosa saudade de Deus, Oceano infinito de beleza,
onde o assombro se converte em admiração, inebriamento e alegria inexprimível
(Cf Carta aos Artistas, 16).
Cantou a saudade da
terra, do mar e do céu. Saudade do passado. Saudade do futuro. Saudade da
origem. Saudade do Além. Saudade de Deus que a criou. Saudade de Deus que a
chamou para a outra margem da vida, sempre envolta em mistério, inacessível
tanto à ciência como à filosofia e onde apenas a luz da fé pode fazer
brilhar a esperança.
Amália era uma mulher
crente. Disse-o muitas vezes. Da sua fé falam os actos que praticou. As
imagens que religiosamente trouxe
consigo ou venerou religiosamente no santuário do seu lar. As orações que
rezou. As esmolas que deu. As amizades que partilhou com as mais variadas
classes de pessoas. Na sua vida há reflexos daquele ideal evangélico,
sintetizado por Jesus Cristo nas bem-aventuranças, que há pouco foram
proclamadas para nós, no decorrer desta celebração.
As bem-aventuranças
condensam o ideal mais elevado a que o ser humano, criado à imagem e semelhança
de Deus, pode e deve aspirar. É um ideal sublime que contrasta com os ideais
humanos. Difícil de captar por quem vive enredado nas teias da razão,
envolto no turbilhão da vida, absorvido com as preocupações da cidade
terrena e esquecido das exigências da cidade celeste. Esse ideal
toma-se mais luminoso e compreensível nos momentos fortes do confronto
directo com o mistério como este que estamos a
viver. Quando «a tenda que é a nossa morada terrestre » se desfaz e, libertos
do exílio, se nos franqueiam as portas do infinito, para entrar na «habitação
eterna, que é obra de Deus(Cf 2Cor5, 1). Quando, iluminados pela fé e
alentados pela esperança, nos confrontamos com uma experiência limite, então
conseguiremos compreender o valor da simplicidade e da misericórdia, da
humildade e da pureza de coração, do sofrimento, da perseguição e da luta
pela justiça, como forças geradoras de paz, de alegria e de amor, tal como
Jesus Cristo no ensina com o sermão da montanha.
Com efeito, o que fica
depois da morte é o espírito e não a matéria. O que acompanha, no Além, os
que partem desta vida, é o bem que praticaram e não as riquezas que
acumularam. Todos partem de mãos vazias. A bagagem chama-se justiça e
verdade, amor e perdão. É invisível. Mas é real. Para os que partem munidos
desta bagagem, cresce a esperança de imortalidade e a certeza da fé: «Aquele
que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar a nós para
nos levar para junto d'Ele» (2 Cor.4,14).
Lisboa, 8 de Outubro de
1999
† José Alves, bispo
auxiliar
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